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É tempo de reconciliação

terça-feira, 4 de agosto de 2009


De repente, instado por uma urgente necessidade básica de cuidar do corpo, que do espírito já não sei se posso fazê-lo, sou, sem mais nem porque, jogado aos leões feito Daniel. Mas, sendo eu próprio um leão, o fato, por si só, não me aflige: leoninamente, balanço a juba e sigo impávido.

Esses leões, de fato, estão mais para quimeras. E não me julgue muito rigorosamente pois que tento me reconciliar com todo um universo de frutas, verduras e legumes (as minhas quimeras, pois), da forma mais responsável possível, e, um pouquinho que seja, de maneira satisfatória.


Eu sei, eu sei! Da forma como coloco, parece que estou a ir ao cadafalso. Não é de todo falso esse sentimento. Mas, eu, gastrônomo, aliado do ingrediente, sou bastante refratário ao consumo das amplas famílias, linhagens, ramificações e folhas, principalmente folhas, dos legumes, verduras e frutas.

Encostado em paredes semelhantes a paredões de fuzilamento e acuado por invisíveis fuzis, me rendo e peço clemência. Mas não de todo. Sou bastante dissimulado quando a estratégia o pede e resolvi fazer dessa nova etapa dietética que me é imposta uma potencial aliança com a verdejante flora comestível. Resolvi sondar o adversário (claro, na concepção do meu paladar) e me unir às suas próprias tropas, tão verdes quanto os olivais uniformes de exércitos.


O fato 1 é que gosto de carne, massas e doces. Em profusão. Verdadeiros oceanos desses alimentos. O fato 2 é que me estão praticamente proibidos. E, assim interditados, me parecem ainda mais excitantes. Ai!

Quando confrontado com ingredientes saudáveis (e o são, admito), a primeira coisa que me vem à cabeça, de forma estranha, é o chuchu. Não se ria. Não sei porque. O chuchu (Sechium edule) é uma hortaliça-fruto, também chamado de machucho e caiota (nos Açores). Para mim, o chuchu é insosso. Não faz minha saliva porejar, perigosa. Não tem gosto. Nada. Vejo apenas a carne macia do chuchu, cozida em água e sal (pouco) e só. Se não fosse a ácida companhia do limão, o chuchu, oh!, seria apenas chuchu.

Chuqrinho que só, de tão sem gosto. Mas, prometi tempos de paz entre eu mesmo e os caros vegetais, legumes e frutas que deverão trabalhar em equipe para me recompor. E, colocado assim, tenho que ter um relacionamento, no mínimo, de respeito com todos esses alimentos.


Não sei porque ocorre essa desintimidade entre o chuchu e eu. Nunca brigamos, de fato. Eu é que, emburrado, me faço de rogado. Talvez haja um certo desdém de minha parte porque o fruto nem da terra é. É vizinho, mas vizinho não é de casa, pois não? Acredita-se que o chuchu vem da América Central, principalmente da Costa Rica e Panamá. Não sei como chegou ao Brasil mas está aqui, impávido a me fitar de suas trepadeiras folhagens. Quando o manto das Américas levantaram nações outras, parece que o chuchu trepava em ramagens fortes no Caribe.

Os astecas, povo desconhecido e misterioso, o destacavam entre as hortaliças e se o faziam, não há de ser eu, uma mixórdia de raças em mim mesmo, que devo desfazê-lo. É uma hortaliça generosa e, suave, pode ser consumida à vontade, o ano todo. É rica em fibras (das quais tenho grande necessidade nesse momento) e pobre em calorias (as quais posso desprezar em toneladas).


Na Ilha da Madeira, leva um nome mais atraente: pepinela ou pimpinela e é ingrediente da gastronomia local. Come-se, na Madeira, chuchu com feijão, batatas e milho para acompanhar, sobretudo, caldeiradas de peixe.

A família ramifica-se em outras conhecidas hortaliças, às quais também terei que prestar continência e demonstrar um pouco de apreço: pepino, abóbora, melão e melancia. Para minha surpresa - e por isso a importância de se conhecer o inimigo, ops!, o colega - o chuchu tem uma ampla variedade de forma, tamanho e cor. Pode ser arredondado ou em formato de pêra. A casca pode ser lisa ou com espinhos e a cor vai do branco ao verde escuro.

Não se consome o chuchu in natura. Deve ser cozido ou refogado e transformado em sopas, cremes, suflês, bolos ou saladas. Outro dado novo para mim: pode-se consumir as folhas, brotos e raízes do chuchu.


Ainda não estou de todo apaixonado por esse fruto-hortaliça. Mas, o fato de eu escrever sobre o chuchu mostra (espero) uma tentativa de nos darmos bem. De limpar entre nós dois quaisquer resquícios de incivilidade. Eu preciso de chuchu. O chuchu não depende de mim. Simples assim.

Estou aqui, cá com meus botões, a imaginar que posso aguentar essas novas trincheiras. Chuchu com camarão é bom, afinal. OK! Sei que não convenci de todo, mas hei de me unir às hostes verdes do alimento da terra. Ou verde ficarei eu de outras coisas tão estranhas que poderão ser creditadas à Marte, caso o sejam, os marcianos, efetivamente verdes. Por enquanto, apenas tremo feito vara verde enquanto não ocorre a aproximação desse vastíssimo contingente verde que me livrará de todos os males. Amém!

A primeira vez a gente nunca esquece

terça-feira, 12 de maio de 2009


De repente, tive ímpetos de comer farofa feita de farinha de milho com bacon e couve-manteiga. Desejo equivalente àquele de mulher grávida, que não pode esperar o dia chegar nem que seja 3 horas da manhã ou que a chuva caia torrencialmente lá fora.

Foi isso: uma torrente de desejo por farofa caseira. E o engraçado é que nem me recordo mais de quanto tempo que comi uma farofa dessas. E tampouco sou chegado em couve. Mas uma coisa levou à outra e vi, inclusive, finos filetes de couve, tão finos quanto linhas de anzol, prontos para serem refogados ao alho, óleo e bacon. Não teve jeito. Fui ao supermercado com a firmeza dos famintos (e gulosos), com a listinha na cabeça, o gosto na boca e a farofa a aquecer meu famélico estômago.

Mas não sei o que é dos supermercados hoje em dia, que funcionam 24 horas, mas que não nos guarnecem das coisas simples da vida. Aquele amontoado de gôndolas, com queijos franceses, azeites espanhóis, misturas japonesas e até mesmo molhos árabes e, numa contradição gritante, não dispõem de bananas, laranjas ou couve!!!


(Tão arredia, a catalônia não se mostra; esta foi a única foto que localizei, ainda em tenros brotos)

Quem é o encarregado de repor o ingrediente básico? Chama o gerente, depressa. Que até mesmo a mais simples venda do interior é capaz de oferecer couve e, se não as tiver, por certo mandará colher logo ali, nos fundos de casa.

Essa é a grande diferença entre a cidade e o interior: cá, não se acha couve quando a vontade assassina está a te deixar tão esverdeado quanto a hortaliça. Lá, apanha-se couve em grandes folhas, gigantes, disponíveis feito leques a se abrirem, convidativos ao frescor.

Pois que acabei sem a couve, objeto número 2 da minha peregrinação. O número 1 era a farinha de milho. Para não sair contrafeito, busquei alternativas. Qual o quê! A única verdura mais próxima da couve era a escarola. E só. Tenho, confesso, um pouquinho de paúra de escarola, de folhas de mostarda, espinafre e outras verdinhas. Mas a vontade, misturada ao desejo, permaneceu.

Saí de lá confiante de que tinha nas mãos um maço de escarola, daqueles hidropônicos, bem vedados na embalagem e, aparentemente, mais saudáveis que as verduras compradas in natura. O que duvido à larga. As folhas, quando as desejo, e são raros esses momentos, as prefiro soltas mesmo. Como se eu tivesse colhido na horta. Mais fácil de assimilá-las, assim.

Cheguei em casa, guardei a compra e reservei os ingredientes para a farofa. Ao abrir a embalagem da escarola, surpresa: não havia escarola, e sim catalônia. Achei que estava a ter crise de catatonia, originada na verde fome. Nada! Era catalônia mesmo e ponto final.

De forma que, à 0:15 minutos desse dia de 12 de maio de 2009 fomos, a catalônia e eu, introduzidos um no mundo do outro. Prazer, como está e shhhhh!!! para a panela já! Rápido assim, o nosso encontro não teve interlúdio ou preliminares que fossem. Eu, ávido. A catalônia, impassível, a se fazer passar por escarola.

Sou de pouca fala quando se trata de verduras, legumes e hortaliças: as folhas, confesso, as confundo bastante. Por ser um consumidor bissexto de vegetais, deles pouco sei. De qualquer forma, a recíproca é verdadeira: a catalônia tampouco tinha me visto mais gordo (sem trocadilhos).

Tratei a catalônia como trataria a couve: com carinho mas com precisão. Cortes cirúrgicos, faca aqui, faca ali e já o alho tiritava na panela, a farinha ameaçava embolar e, finalmente, catalônias ao fogo. Estava pronta minha farofa. Que comi, voraz. A catalônia, que se bêbado eu estivesse, passaria por almeirão mais requintado, se prestou muito bem ao papel de couve. Madrugada memorável de dois virgens, um do outro. Agora, íntimos.

Para decorar a mesa

quarta-feira, 29 de abril de 2009


É chamada, de forma incorreta, de chicória. Mas a planta tem folhas abertas, com cabeça (folhas justapostas e fechadas) e raiz mais grossa do que a chicória. As variedades mais conhecidas são Catalonha, Pão-de-Açúcar, Radiche (de folha larga), Palla Rossa, Madnesburgo (de raiz) e Spadona. No Brasil, há uma espécie chamada de almeirão-do-mato, que é menos amarga do que o almeirão considerado legítimo.


A hortaliça tem vários nomes populares: almeirão (Chicorium intybus), radiche, almeirão-selvagem, almeirão-de-raiz, chicória, chicória-amarga, chicória-do-café, almeirão-silvestre, chicória-brava e radice-selvagem. Por isso, muitas vezes, o almeirão é confundido tanto com a chicória quanto com o radiche.


E não me espanta que na feira compre-se radiche e leve para casa almeirão, ou compre-se chicória e acabe com o almeirão na mão. Todas essas hortaliças são bastante semelhantes e, a não ser por um experiente olho da dona-de-casa ou do chef, muitos de nós pouco sabemos o que vem a ser uma hortaliça e outra.


O almeirão legítimo é originário de regiões da Ásia, Europa e África. As folhas são, quase sempre, alongadas e podem ser largas ou estreitas, de cor verde ou arroxeada. As flores não condizem com o amargor da planta: são exuberantes, sejam azuis ou roxas. E, como as de abóbora, podem ser comestíveis e caem bem como adorno de saladas. A beleza das flores é tanta que, na Europa, o almeirão é cultivado com fins ornamentais. O almeirão faz parte da mesma família da chicória, do alface, do dente-de-leão e da serralha.


Para consumo, as folhas do almeirão devem estar verdes e firmes. Como todas as hortaliças, ou quase todas, estraga rapidamente. Substitui com louvor outras folhas como a couve, o espinafre e a chicória, tanto em pratos quentes quanto em saladas. As folhas podem ser refogadas no azeite e temperadas com sal, alho e pimenta-do-reino, por exemplo. Mas vai bem também com feijão, arroz, grão-de-bico, soja, lentilhas e até como recheio de bolinhos, tortas e sanduíches.


Para as pessoas que são adeptas da cor verde para misturar na comida, serve como acompanhamento de carne assada, de linguiça e de aves. Já o almeirão roxo, que é mais raro, é menos amargo do que o verde e pode ser consumido até mesmo cru. Para o tempero de salada de almeirão, use e abuse do azeite, da cebola, alho, pimenta-do-reino, vinagre, limão e cheiro-verde.


Meu avó gostava muito do almeirão (acho que era o do tipo silvestre). As folhas alongadas, lembro-me vagamente, sempre estavam lá na horta. Sempre havia um pé de almeirão, conjugado aos pés de agrião.

Colheita líquida

quarta-feira, 1 de abril de 2009


Quando ainda morava no campo, me lembro que meu avô nunca deixou de cultivar a hortaliça nos arredores de casa. Ou haviam canteiros na horta ou, o que era mais frequente, pequenas ramas semeadas diretamente nos córregos que se formavam a partir da água que saia dos tanques de abastecimento de animais. Era uma colheita líquida: apanhar o agrião e brincar na água.


Também próximo da minha casa, a hortaliça era 'cultivada' no pequeno rio, na parte mais interessante, na 'mina' como a chamávamos, de onde via a água encanada e o barro de argila branco que tantas vezes nos levou à bica.


O agrião vem do sudeste da Ásia e é usado há séculos na Europa. Aqui, no Brasil, não encontrei referências da chegada dessa hortaliça. Mas já gregos e romanos a usavam em seus banquetes, cujos pratos sempre tinham como ingredientes as especiarias e saladas picantes.


Há duas linhas na família do agrião (Nasturtium officinale): o de terra seca, que, como a couve, o repolho e o brócoli, é uma brássica, e o agrião d'água (ou agrião-do-rio). Li que o agrião d'água é raro em terras brasileiras e, portanto, não sei dizer se o agrião cultivado no nosso sítio, nos pequenos córregos, é de terra ou de água. Acho que pode ser uma espécie mista, devidamente adaptada às condições locais. Ou talvez seja a espécie Rorippa nasturtium-aquaticum, mais frequente em rios e riachos. Não sei dizer.


A qualidade do agrião depende da cor e brilho das folhas. Quanto mais verdes e brilhantes, melhor. A hortaliça pode ser usada cru em saladas - adoro com bastante limão, sal e pimenta-do-reino para acompanhar churrasco - ou misturada com alface, rúcula e chicória. E vai bem também com sucos de frutas.


O agrião acompanha bem sanduíches, panquecas, rabadas, rocamboles (salgados), pães, molhos, sopas e purês. Os talos, geralmente desprezados, podem ser usados em sopas, misturados no arroz, refogados com temperos e ovos batidos e até como recheio de suflês e bolinhos.

A sativa sem-rival

sexta-feira, 20 de março de 2009


A alface (Lactuca sativa) é uma hortaliça originária da Ásia. Em 4.500 a.C, já era conhecida e consumida no Egito. No Brasil, chegou no século XVI, trazida pelos portugueses. É, no Brasil e no mundo, a hortaliça folhosa mais consumida, o que lhe dá dianteira sobre outra sativa, também bastante popular no globo terrestre.


A parte comestível da alface são as folhas, que podem ser lisas ou crespas, e fecham-se ou não em "cabeças". A coloração varia conforme a espécie: verde-amarelado, verde-claro, verde-escuro e verde com tonalidades de roxo. As classificações da alface são: Americana, Crespa, Lisa, Mimosa e Romana. No Brasil, a mais consumida é a Crespa.

Mundialmente, a alface é usada para o consumo humano em saladas, em trouxinhas com recheios (de queijos, carne ou outros) e como acompanhamento de sanduíches.


As melhores alfaces para o consumo são as de folhas limpas e de cores brilhantes. Acondicionadas devidamente em sacos plásticos e guardadas sob refrigeração, as alfaces costumam durar entre cinco a sete dias. Para aqueles que temem os deuses das gorduras e dos exageros, a alface é recomendada como comida de cabeceira, quer dizer, da cabeceira da mesa. Cem gramas de alface significam apenas 15 calorias e podem, pelo menos, assustar a fome tanto quanto uma boa porção de alfafa acalma cavalos esfaimados.

Em casa, por exemplo, minhas irmãs consomem alface como se fosse uma iguaria das mais finas. O que, na minha avaliação, não é, realmente, o caso. Da alface, gosto sim: das cores, da textura e do recorte. Sem um bom suco de limão, sal, pimenta-do-reino e um bocadinho de óleo de gergelim ou um aceto balsâmico, a alface crua para mim tem o mesmo valor que o gramado do quintal.


Apesar de as variedades serem divididas em quatro famílias, são diversas as espécies de cada uma. A variedade alface-repolhuda (capitata) inclui as alfaces-icebergs, bateavia, greta lakes, bola-de-manteiga, mescher, maravilha-das-quatro-estações e sem-rival; a variedade romana (longifolia) inclui a alface-romana, a orelha-de-mula, a loura-das-hortas e a balão; da variedade crespa ou frisada (crispa) fazem parte a alface escura-do-olival, folha-de-carvalho e lolla-rossa; e, finalmente, da variedade galega (latina) fazem parte as alfaces-galegas.

Eu não sabia que havia tanta variedade de alface assim. Quem sabe, entre uma dessas, esteja aquela alface ideal que me conquiste em definitivo e me arregimente para o reino das sativas. Quem sabe!

A rosa fétida

quinta-feira, 12 de março de 2009


A referência mais antiga que se tem do alho vem da Bíblia, quando Satã foi expulso do Paraíso e, ao caminhar, deixava alhos a brotar das pegadas esquerdas e cebola das pegadas direitas. De forma que o casamento entre alho e cebola esteve, desde o início, predestinado a ser consumado.

Mas, na vida real, não se sabe exatamente quando e onde o alho "surgiu", quer dizer, quando foi devidamente assimilado pelo homem. Os registros mais confiáveis apontam para o uso do alho há mais de 6 mil anos, em regiões que vão do mediterrâneo europeu ao solo asiático, com passagens pela Sibéria e Egito.


Assim como o sal já foi moeda, o alho também o foi: no Egito, sete quilos de alho pagavam um escravo e, na Sibéria, os impostos eram pagos em alho. Desde o princípio, o alho foi usado para conservar carne. Detalhe: carnes comestíveis e carne humana, ainda que eu soe redundante posto que se come carne humana, de uma forma ou de outra. Os egípcios usavam o alho durante o processo de embalsamento de cadáveres. Nesse caso, se você é o que você come, você é o que você morre também. Não sei dizer se o fato é verdadeiro, mas, no túmulo do faraó Tutankamon foram encontrados seis dentes de alho e também em cemitérios pré-históricos consta que havia bulbos de alho moldados em argila. Em ambos os casos, a presença do alho serviria para afastar maus espíritos.


Sempre que se recorre à entrada de determinado ingrediente no Brasil, as informações são bastante imprecisas. Assim é também com o alho: consta que a hortaliça chegou com as caravelas de Pedro Alvares Cabral. Mas, para passar de planta de fundo de quintal à condição de cultura de grandes proporções, foram cinco longos séculos: o alho era cultivado apenas em pequenas quantidades. Depois, tornou-se lavoura intensiva, em larga escala.

Se o alho percorreu um longo caminho para popularizar-se em todo o mundo, uma vez tendo atingido as regiões - Sibéria, Egito, Índia, Grécia, Oriente Médio, China, Rússia e Europa -, tornou-se nobre. São poucas as cozinhas mundiais, atualmente, que dispensam o uso do alho como tempero de base.


O alho (Allium Sativum) pertence à mesma família da cebola e da cebolinha. O plantio é feito por bulbos (bulbilhos) ou pelos dentes. O bulbo é a chamada "cabeça", com dez ou 12 dentes cada. Claro que, assim como outras culturas, o alho tem as mais variadas espécies. Estima-se que hajam mais de 600 subespécies de alho em todo o mundo. As características de cada espécie ou subespécie são dadas pelo tamanho, forma, sabor, número de dentes por bulbo, acidez e capacidade de armazenamento.

Se o uso na gastronomia é ostensivo, o alho sempre esteve ligado, em igual medida, ao uso medicinal. Ao alho são atribuídas vastas propriedades terapêuticas, inclusive com poder de cura, segundo os especialistas.


Na cozinha, o alho pode ser usado das mais diversas formas: cru, refogado, picado, em rodelas, salteado, defumado, em conserva e qualquer outro uso que se possa imaginar. Vai bem com tudo: arroz, feijão, carnes, massas, peixes, aves. Não há limites para o uso do alho.

No entanto, o alho é como algumas pessoas: ou você as ama ou as odeia. Não há possibilidade de se gostar do alho pela metade. Uma curiosidade: enquanto na cozinha européia e outras prepara-se o refogado do casal cebola-alho na sequência cebola primeiro e alho depois, a autêntica cozinha brasileira determina que o alho é o primeiro a ser refogado e depois a cebola. 
Experimente fazer isso no dia-a-dia com o arroz e o feijão. Garanto que você gostará do resultado final. O segredo está em refogar o alho em fogo brando o bastante para não queimá-lo até que se adicione a cebola.


E, se você duvida ainda que o alho combina com tudo, veja só: sorvete e drink à base de alho. Nos EUA, há um restaurante temático do alho, o The Stinking Rose (algo como "cheirando rosa", na tradução, em referência a 'stink rose', ou rosa fétida, que é uma das definições para o alho), que privilegia o uso da hortaliça nas produções.

E, claro, eu não poderia deixar de citar o uso do alho contra vampiros. Se eles existem? Desde que tenho assistido "True Blood", tenho torcido para levar uma mordida. Eu, fácil, fácil, nem usaria alho, pelo menos dessa vez.

Taioba

domingo, 7 de dezembro de 2008


A taioba (Xanthosoma sagittifolium) é desconhecida. Era até este momento para mim. Incrível como não se conhece o que se tem quase no quintal, não é? A planta é um tipo de verdura, uma variedade do inhame que pode ser consumida após o cozimento. Pode ser taiá ou taiova, ainda assim estranha.


A associação mais próxima é com a couve. Tem origem milenar na China e no Egito. Tem folhas maiores, mais largas e mais vistosas, no entanto, do que a couve. A taioba tem mais vitamina C do que a cenoura, o brócolis e o espinafre.


Eu falei em quintal antes porque a taioba pode ser cultivada assim como se planta o alface, a salsa ou a cebolinha. Para preparar taioba, haja como se fosse couve: lave, pique e refogue com cebola. É ótima para acompanhar o feijão e o arroz do dia-a-dia. Só não confunda com a taioba-brava (Colocasia antiquorum), ou cocó, taió ou tajá. Essa é venenosa e intoxica.


Com taioba se faz salada, bolinho, pizza ou lasanha. Se faz creme de taioba, como se faz com espinafre. Da taioba, como de outros casos já citados neste blog, se aproveita tudo: o tubérculo, as folhas e as hastes. Nós, brasileiros, temos o costume de jogar fora algumas partes dos alimentos: da batata, desprezamos a casca, da couve, os talos, e assim por diante. Besteira! Conheci uma senhora que não enviava nada ao lixo. Aproveitava tudo. As plantas são sagradas também no preparo das refeições. A taioba é uma estranha ainda para mim. Não fomos apresentados um ao outro. Mas, já sei que dá para fazer arroz e torta de taioba.


Tem umas folhagens aqui em casa que até mesmo parecem taioba. Por que não cultivar uma planta dessas em casa e fazer uma salada fresca, direto da horta? Dizem que a taioba sumiu. Viva a taioba!

Coração magoado

quarta-feira, 26 de novembro de 2008


No Nordeste, o tubérculo é chamado de "coração magoado". Gosto do nome, mas, não o compreendo completamente: a batata-doce, assada em brasa, é um dos alimentos mais gostosos para se comer numa manhã de inverno no campo.


Afirmo isso com a convicção de ter feito, eu mesmo, a brasa e a batata-doce assada em brasa. Com café, então, é irresistível. Então, como pode ser "coração magoado"? Talvez seja pela dolçura. Talvez. A batata-doce (Ipomoea batata) é da ordem de hortaliças de raízes como a própria batata (inglesa e demais espécies), do tomate e das pimentas.


Há diversas variedades - de mesa ou de mercado - e podem ser amarelas, brancas ou roxas. Também são classificadas conforme o tamanho, a cor interna, o dulçor e a cor das folhas e das flores. No Brasil, é a sexta hortaliça mais cultivada, ainda que haja um declínio da produção no País.


Originária da Cordilheira dos Andes, a batata-doce é bastante cultivada nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. A produção, em grande parte, destina-se ao consumo doméstico, de subsistência. E, primordialmente, é consumida por famílias rurais na primeira refeição do dia, ou seja, no café da manhã, assim como eu citei no início do post.


Em geral, a batata-doce é consumida cozida ou assada, mas, pode ser batida com leite, em forma de vitamina. O Brasil produz quatro tipos de batata-doce, classificados conforme a cor da polpa: batata-branca (chamada também de angola ou terra-nova), que tem polpa seca e não muito doce; batata-amarela, mais doce do que a batata-branca; batata-roxa, com casca e polpa roxa e sabor e aroma agradáveis, ideal para fazer doce; e batata-doce-avermelhada. Essa última é chamada, no Nordeste, de "coração magoado". Tem casca parda e polpa amarela com veios roxos ou avermelhados, o que lhe dá um aspecto de um coração humano cansado.


Eu preferia que o "magoado" do nome fosse de uma origem sentimental, claro. Mas, trata-se mais da condição física do coração. Nesse caso, o coração, digo, a batata-doce, não está nas melhores condições. Quer dizer, para consumo sim. Não para o funcionamento, se coração fosse. Ai que confusão!


Falei no começo da batata-doce assada em brasa. Mas, acho que gosto mais ainda do doce de batata-doce. Doce esse que, como já citei no blog, me remete à minha infância. Industrialmente, o doce de batata-doce pode ser colorido (vermelho, marrom). O gosto é o mesmo. Além do marrom-glacê, fantástico, do qual eu nunca enjoei. E olha a ironia, tipicamente brasileira: o marron-glacé original é um doce francês (também chamado de castanha glaçada), feito de castanha cozida mergulhada em calda de açúcar. Como é uma produção cara e refinada, rapidamente, no Brasil, nos apropriamos da denominação marron-glacê para o doce de batata-doce. E o sabor entre os dois - o francês e o brasileiro - é até mesmo semelhante. 

Morangona

terça-feira, 25 de novembro de 2008


A moranga, ou abóbora-moranga (Cucurbita máxima, Duschene, Dicotyledonae ou Cucurbitaceae), é original da América do Sul, das civilizações pré-colombianas.


Há algumas variações regionais brasileiras como a moranga exportação (de casca alaranjada e polpa amarela), moranga Coroa IAC (casca cinzenta e polpa amarela) e híbridas como a Tetsukabuto (da Bahia), Lavras I e Lavras II.


Da moranga, se aproveita tudo: da polpa são feitos doces, sopas, refogados, suflês, nhoques, pão, bolos, purês, sorvetes. E vai bem com cozidos, feijoada e assados. Crua, pode ser ralada e salpicada em saladas leves. Essa hortaliça multifacetada deveria se chamar Morangona, tal a diversidade de uso.


Os brotos podem ser usados na gastronomia salteados, para compor algum prato. As folhas, também salteadas, podem ser adicionadas a sopas e caldos. E as flores podem ser feitas à milanesa, salteadas para rechear omeletes e, claro, para decorar pratos.

As próprias sementes podem ser usadas em sopas e purês e também podem ser salteadas em manteiga como aperitivo (como o amendoim).


Para mim, o melhor papel da moranga é o de servir de base para o prato Camarão na Moranga. Conservo até hoje a memória gustativa do Camarão na Moranga que tive o prazer de comer no restaurante República dos Camarões, em Maceió, capital das Alagoas. Divino, para dizer o mínimo. Os camarões eram gigantescos, a moranga, perfeita, e as guarnições eram típicas. Além, é claro, da companhia. Como isso aconteceu há muito tempo, creio que está na hora de eu voltar a Maceió para repetir a dose.